Monday, July 31, 2006

O Líbano no Brasil

Segunda cedo. Trinta e um de Julho de 2006 amanhece frio e triste com as notícias dos bombardeios sobre o Líbano e as mortes de crianças inocentes com o indiscriminado ataque israelense.

Não há mais distâncias. As mortes parecem estar acontecendo aqui na esquina. O zumbido dos aviões e o estrondo das bombas invadem o nosso sono e a nossa vigília.

Lembro-me de que haverá a festa dos sessenta anos do Fernão Dias Paes em Pinheiros onde concluí o colegial há quarenta anos. Pesquiso na internet sobre o evento e trombo com a biografia de Raduan Nassar, o festejado autor de Lavoura Arcaica que, para minha surpresa, também estudou no Fernão. E era dono do Bazar 13, a famosa loja de armarinhos que se transformou em supermercado no século passado; e também do Jornal do Bairro onde tive meu primeiro texto publicado, aos dez anos, uma redação que dedicara à irmãzinha como minha melhor amiga no Colégio Machado de Assis. E que a mãe libanesa - Chafica Cassis - nascera na mesma aldeia sofrida do sul do Líbano - Ibel-Saki - onde meu avô nascera. E que seu sobrenome era o mesmo de meu bisavô paterno Anderáos Cassis.

Penso com tristeza no Líbano que nunca chegarei a conhecer.

Compensa-me a possibilidade de conhecer Raduan, Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera, Menina a Caminho e tantos parentes que sequer sabia que existiam.

Nagib Anderáos Neto

Friday, July 28, 2006

Um Estudo Sobre Rimbaud

A hora dos assassinos – o pequeno e mágico livro de Henry Miller – é um imperdível estudo sobre Rimbaud e também sobre o próprio autor; uma análise profunda sobre esta sociedade perdida e desorientada da qual fazemos parte.

A humanidade dividida, separada por crenças e regimes absurdos, submersa numa ignorância sem precedentes, perdeu a capacidade de se comunicar. O aparato tecnológico criou uma pseudocomunicação ruidosa, oca e sem sentido.

E ocorreu a maior de todas as tragédias: Deus desapareceu das mentes e dos corações humanos e foi substituído por ídolos de cera e de papel: o Deus morto de Nietsche e o desaparecido de Saramago.

O escritor americano amplificou o protesto de Rimbaud no século passado, triste século de guerras e destruição. E não fomos capazes de tirar proveito daquelas amargas experiências e voltamos a entregar a direção do mundo a fanáticos lunáticos do Ocidente e do Oriente.

Estamos a reeditar os grandes desastres que são as guerras promovidas por mentes corrompidas por ódios, rancores e preconceitos seculares.

A quem pertence a Terra?

Pertence aos que dispõem de maiores exércitos e marinhas. Aos que brandem o grande porrete econômico, protestou Henry Miller.

O que querem os governos?

Os governos não querem nada, querem apenas continuar sendo governo enquanto que a corrupção consome vidas e gera miséria e iniqüidade.

E o mundo vai se transformando em algo murcho, sem brilho, pois negra é a hora dos assassinos que estamos vivendo.

É mesmo verdade que o homem sequer começou a pensar, mas há nas profundezas de sua consciência adormecida uma esperança.

“Se um único átomo contém tanta energia, o que dizer do homem que contém Universos de átomos? Se é a energia que ele idolatra, por que não a procura em si mesmo?”

Sim, temos que concordar com Henry Miller e com Rimbaud, “temos que ser absolutamente modernos e nos afastar das quimeras, das superstições, dos dogmas para construir uma nova civilização,” e” produzir luz, e não iluminação artificial”, para que a humanidade do futuro não venha a protestar como o jovem poeta Rimbaud, e como Henry Miller, e como tantos outros, dizendo que tudo o que nos ensinam é falso.

Nagib Anderáos Neto.
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Voluntariado no Combate à Corrupção

Antes de procurarmos as raízes históricas da corrupção em nosso país, remontando-nos ao Brasil - Colônia e aos primeiros dilapidadores de nossa terra e exploradores de nossos ancestrais que aqui estavam muito antes dos colonizadores que vieram trazer sua pretensa cultura em troca de nossas riquezas que levavam para a Europa, falemos das raízes psicológicas desta doença nefasta que corrompe as mentes e endurece os corações criando miséria e injustiça social.

O corrupto é um doente mental que vive em liberdade pelas cidades aparentando uma sanidade que o observador perspicaz não deixa de perceber que é falsa.

A corrupção é o desrespeito total à figura humana, uma atitude travestida de misericórdia e bondade, tão bem representada por pessoas que fingem parecer o que não são nos palanques, nos púlpitos, nas telas das televisões.

O corrupto é um especialista em iludir o semelhante, um camaleão social, sempre pronto e disposto a enganar as pessoas tristemente chamadas de boa-fé. Ele não mostra, não demonstra, não comprova. Seu discurso oco, sorriso cínico e olhar oblíquo têm como único objetivo enganar para se beneficiar. É um materialista incorrigível sempre a se esconder por detrás de uma máscara de bondade que se desfaz à menor e firme oposição inteligente.

A corrupção se confunde com hipocrisia, ambição, mentira e desumanidade. Geradora de guerras e desentendimentos de toda a ordem é o signo mais eloqüente da ignorância. Para combatê-la será necessário combater o atraso e as superstições de toda índole.

É comum associá-la à política, pois ali ela é mais visível, mas não é apenas privilégio daquele triste ambiente; está nas empresas, em associações diversas, porque suas raízes são mentais, pensamentos enraizados nas mentes humanas há séculos que levam os seres humanos a iludir a outros para se beneficiar.

A vitória sobre esta doença será o fruto de um processo lento, mas contínuo, que deverá começar no ambiente familiar, nos bancos escolares, para atingir, depois, todo o tecido social, educando as crianças para a vida, para a boa convivência, preservando suas mentes de pensamentos ambiciosos e agressivos, transmitindo-lhes conceitos humanitários que lhes criem uma consciência de ser humano que veja a vida como um grande campo de experiência, amizade e aprendizado, ao invés do palco onde se desenrola o triste espetáculo das desumanidades e das atrocidades dos seres que vivem a enganar a si próprios e aos demais.

A corrupção tem suas raízes no egoísmo ancestral que trazemos dentro de nós e que nos serviu em épocas remotas nas quais deveríamos nos defender das intempéries naturais, das feras e de nossa própria ignorância. Com o passar dos tempos, as feras que combatíamos surgiram em nossas mentes como pensamentos que agora querem nos devorar e a nossa espécie, como o egoísmo.

Será necessário aprendermos a nos preocupar inteligentemente conosco e com as demais pessoas, pois servir os outros é a maneira mais inteligente de servir a si mesmo. E mais do que dar o peixe, que bem sabido é que não leva a nada, ou mesmo ensinar a pescar, é importante saber se a pessoa ajudada faz bom uso do bem recebido e se o transmite às outras pessoas para que seja credor de apoio futuro.
Assim é como muitas pessoas têm encontrado no voluntariado uma maneira de combater essa praga mental que é a corrupção cujas raízes não foram ainda devidamente identificadas e eliminadas.


Nagib Anderáos Neto
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andergatti@terra.com.br

A Curiosidade e o Interesse

A palavra interesse tem sua origem no latim e significa estar entre. Podemos dizer que é uma postura mental ativa diante de algo que nos chama a atenção. Leva-nos a aprofundar no objeto que estamos vendo ou analisando com os olhos mentais, a observação e o entendimento. Quando existe o interesse, os fatos, as sensações, as experiências fixam-se fortemente nos arquivos da vida, os da mente e da sensibilidade, sendo jamais são esquecidos. Podemos nos interessar por uma pessoa, um animal, um objeto, uma paisagem, um conhecimento. Deveríamos, antes de tudo, interessar-nos por nós mesmos; pelo que somos e poderemos ser. O interesse implica sempre numa responsabilidade, numa profundidade, e nunca na superficialidade, como no caso da curiosidade, que pôde ter sua utilidade nas primeiras etapas da vida do homem na Terra, como o tem para as crianças que reproduzem aquela fase da evolução da espécie, mas que quando adultas deverão substituir a curiosidade pelo interesse, a superficialidade pela profundidade.
Existe um tempo para a curiosidade e um tempo para o interesse, como um para infância e outro para a maturidade, embora devamos procurar manter em nossas mentes e em nossos corações a criança que fomos um dia como um tributo de gratidão àquela fase iluminada e feliz.
No livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, o educador Carlos Bernardo González Pecotche caracteriza a curiosidade como um pensamento com origem num impulso instintivo, adequado ao rude homem primitivo e aceitável também nas crianças. E que no adulto este impulso natural pode se transformar num grave defeito que leve a pessoa a bisbilhotar a vida alheia, sempre ávida de informação, ocupando-se do que não deveria se ocupar e causando muitos problemas para si mesmo e para os outros. Grave defeito que tem distanciado tantas pessoas, pois o intrometido e indiscreto está sempre a vigiar os outros se esquecendo de si mesmo, que é quem mais deveria lhe interessar.
Para que a pessoa mude e se torne circunspeta, explica o educador, será necessário mudar esta postura curiosa e passar “do superficial ao profundo das coisas, do que não é transcendente ao importante e transcendente, da curiosidade ao interesse que se justifica no fim perseguido”.
A tarefa não é fácil e nem difícil. Exigirá a vontade e o empenho de quem pretenda deixar de ser curioso e superficial para interessar-se por motivos e assuntos que transcendam a vulgaridade que enfeitiça e hipnotiza as mentes que vagam sem uma orientação definida.
No mesmo livro o autor descreve o interesse como antípoda da indiferença, outro pensamento negativo que provoca ausência mental e sensível da pessoa em relação ao que lhe rodeia. Uma indiferença que pode surgir de fracassos, derrotas e levar uma pessoa a ficar doente pelo desleixo com a saúde, ou até ao suicídio em casos extremos.
E conclui o autor exortando a quem padeça do mal da indiferença para que lute contra esta tendência negativa: “A vida não deve ser indiferente a nada. A morte, sim, é indiferente a tudo, e a frieza da indiferença assemelha-se, eloqüentemente, ao mutismo da tumba”.
Tais palavras nos trazem à recordação a Comédia de Dante onde o poeta diz que “o pior dos suplícios é sentir-se morto sem acabar de morrer, é sentir-se quase vivo estando morto, e, ansiando morrer, seguir vivendo”.

Nagib Anderáos Neto
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Parar de Fumar

Ao andar pelas ruas das grandes cidades, impressiona-nos o crescente número de fumantes, dependentes químicos e psicológicos do cigarro que arruínam a própria saúde e formam um grande contingente que é um peso para a saúde pública e para o sistema previdenciário, com graves conseqüências sociais e econômicas. Segundo as estatísticas, os jovens estão fumando mais, as meninas especialmente. Apesar das restrições à propaganda, o vício vai se alastrando descontroladamente.

No dia primeiro de Maio de 1998 parei de fumar. Um grande final de uma brincadeira que durou mais de trinta anos. Estava por completar 50 anos e resolvi dar um golpe fatal naquele hábito horroroso com o qual não me conformava desde que o adquirira na década de sessenta. Naquele tempo todo mundo fumava, era chique, bonito, apreciado. Nos tempos de cursinho e faculdade, nem se fale!

Comecei filando do meu pai que deixava o maço em casa e só fumava um cigarrinho depois do cafezinho. Depois comecei filar dos amigos, e um dia comecei a comprar. Fumava pouco, mas fumava.

Quando tinha uns vinte e poucos anos descobri que por detrás do hábito havia um pensamento em minha mente que o representava e que precisava ser controlado para não crescer demais. E foi o que fiz; cuidei dele, mas não o matei de fome, do que me arrependo, mas em tempo o fiz, com quase cinqüenta anos.

Quando larguei, descobri que além do hábito representado por aquele pensamento, havia uma dependência química, os anticorpos que pediam a dose diária de nicotina e que em 15 dias de abstinência foram eliminados do organismo. E como o pensamento estava fraquinho pelo combate que travei durante aqueles longos anos, venci a batalha sem remédios nem apoio psicológico, com minha própria vontade!

Foi uma longa e árdua luta como tantas que devemos travar com certos pensamentos estranhos e que têm vida própria em nossa mente e acabam por mandar em nossa vida.

Como escreveu certa vez o educador González Pecotche, vivemos num mundo onde imperam os pensamentos. Temos a impressão de sermos os donos de nossa vida e de nosso destino, mas na verdade somos levados de lá pra cá por pensamentos estranhos, exóticos, ditadores.

Como muito bem explicou-nos noutro dia o amigo Antonini, a mente do ser humano assemelha-se à uma praça pública com uma multidão de pensamentos de toda índole que por lá perambulam num burburinho e numa desorganização sem precedentes.

Qualquer mudança naquele ambiente deve começar por ordená-la e organizá-la, identificando os transeuntes e selecionando aqueles que podem servir. Uma espécie de estado de sítio mental subordinado à autoridade de um pensamento central.

Reverter a condição humilhante em que a maioria das pessoas vive, escravizadas por pensamentos alheios e estranhos à própria vontade e realidade, é uma tarefa cujos resultados são infinitamente superiores ao esforço empreendido.

Nagib Anderaos Neto
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A Cultura na Formação de uma Nova Civilização

Os seres humanos passam por aqui, vivem um tempo, deixam um dia esta Terra, mas fica a cultura, o cultivo de pensamentos e idéias urdidos em palavras e obras. Todo o indivíduo acaba por contribuir para o aquilatamento da cultura que pode ser um legado para as gerações futuras.
Da mesma forma que um grão de areia encerra em si todo um Universo, cada ser humano pode concentrar em si toda uma humanidade e ser uma ínfima representação da Sabedoria Universal, quer dizer, do próprio Deus que nela Se representa.
A grandeza de uma cultura pode ser o fundamento de uma nação e amplia-se com o aumento da capacidade de estudo. A instrução continuada deverá ser o pilar principal de qualquer política. Tudo o mais será conseqüência dela, pois a maior vocação do espírito humano é a criação, a realização para o que o estudo contribui diretamente. A Pátria e o espírito da nacionalidade provêm dessa realização. O estudo individual e o coletivo unem os seres humanos numa realização e compreensão sobre as altas finalidades do ser humano.
Existe uma cultura comum e informativa cujos alcances estão limitados à sua superficialidade. Há também uma cultura mediana que se eleva por sobre as capas da ignorância e alcança os bancos universitários, mas quase sempre circunstanciada a aspectos materiais da vida humana, sua subsistência, ou mesmo alguns prazeres intelectuais que roçam uma pseudo-superioridade que se desmorona ao mais leve confronto entre as personalidades desenhadas com aparente refinamento, mas com uma grande incapacidade por reconhecer as próprias limitações.
Existem os lampejos de uma nova cultura, a superior, onde o espírito humano se libera das amarras da mediocridade, do egoísmo e da superstição que tanto o limitam e aprisionam.
As linhas divisórias entre estas diversas culturas estão na qualidade, conteúdo e hierarquia dos conhecimentos que as concretizam, indo da experiência pré-histórica da sobrevivência, na qual as armas serviam para matar as feras que ameaçavam o ser humano e, passando por nossa época, quando as mesmas armas servem para os seres humanos se exterminarem, pois as feras que os ameaçavam no passado acabaram surgindo em suas mentes como pensamentos monstruosos que querem destruir toda a vida no planeta, até chegar a um futuro superado, esperança de toda a espécie humana, uma nova civilização na qual se reconhecerá em tudo quanto existe, dentro e ao redor do ser humano, a expressão vívida da Sabedoria Universal merecedora de toda a nossa reverência e respeito.
A nova cultura será o produto de uma grande revolução a ser travada no íntimo dos seres humanos, no âmbito de seus pensamentos e sentimentos, através da eliminação de tudo quanto lhes tem dificultado a convivência pacífica com os semelhantes, pois inteligência pressupõe harmonia interior e entre as pessoas. Mais do que informativa, ela será uma cultura formativa na qual os espíritos ávidos por conhecimentos haverão de ampliar a própria consciência e cultivar pensamentos e sentimentos de natureza superior através do estudo e esforço próprios.
O ser humano do futuro deixará de lado as ambições que deságuam em insanos sonhos de poder e riqueza substituindo-os pelo amor ao estudo e ao saber. Além do meio ambiente que o cerca, aprenderá a cuidar do próprio ambiente mental de onde provêm os pensamentos e as idéias que podem elevá-lo ou mergulhá-lo na escuridão.

Nagib Anderaos Neto
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A ARTE DE SONHAR

Qual mistério envolve a atividade artística quando o ser humano decide elevar-se sobre a mediocridade plana da vida rotineira para alçar-se em vôos cujas obras eternizam-se no plano físico transcendendo seus curtos anos de vida na Terra?
Por que arte e cultura são tão celebradas?
As crianças trazem consigo uma vocação natural para a arte que se vai apagando à medida que crescem e vão sendo influenciadas e sufocadas por este mundo cheio de idéias praticas permeadas pelas ânsias da produção, do trabalho, do lucro e da exploração.
Com o tempo, o pequeno artista transforma-se num homem amargo, previsível e frustrado, numa jornada tão bem ilustrada pelo mito de Sisífo, resumida num trabalho rotineiro, inútil e sem esperança.
Mas o espírito – imanência de Deus no homem – vinga-se da alma adulta nas noites eternas transformando o seu sono em espetáculos inesperados onde o pequeno artista renasce como autor e como ator, cumprindo o seu destino naquele palco metafísico chamado sonho.
A criança eterna de Caieiro está ali a apontar a direção de um grande destino do qual aquele ser infeliz se desviou: ser um criador de si mesmo, escultor da própria imagem, pintor do próprio destino e escritor de sua história.
A matéria inextricável e confusa de pensamentos desconexos que durante o dia se atropelavam naquela mente desorganizada, à noite integram-se em personagens assustadores que se enredam em pesadelos terríveis ou compõem idílicas e eufônicas passagens que perduram na recordação como reminiscências inefáveis.
Durante o sonho, a criança vem cobrar o seu destino e reafirmar que existe e que gostaria de estar presente na vigília, este outro sonho misterioso e inescrutável.
Diz-nos Borges em A Rosa Profunda (O Sonho, 93) que “dessa região imersa resgato restos que não consigo compreender: ervas de singela botânica, animais um pouco diferentes, diálogos com os mortos, rostos que na verdade são máscaras, palavras de linguagem muito antigas e às vezes um horror incomparável ao que nos pode conceder o dia”.
Quantas vezes assustados emergimos de um pesadelo sufocante e nos dizemos aliviados: Era apenas um sonho! E quantas outras, em meio à vigília exasperante, perguntamo-nos se o que está nos acontecendo não seria um pesadelo.
O pensador e humanista Gozález Pecotche escreveu no livro O Espírito: “Sobre os sonhos já se fizeram inúmeras preposições. Muitos pretenderam decifrá-los, dar-lhes um significado particular, muitos também teceram em torno deles fantásticas conjeturas, mas ninguém jamais expressou que é o espírito quem os provoca, em seu constante esforço por se fazer presente em nossa vida diária”.
A arte faz parte da vida do ser humano e é tão antiga quanto a civilização. A pictografia ancestral, como o pendor infantil para a comunicação através da arte, é a prova cabal de que o homem é diferente dos animais. O homem primitivo, além de caçar, comer, dormir e se reproduzir tinha a necessidade de se comunicar através da arte. Pode-se dizer que a comunicação é uma necessidade humana e que arte é algo mais que mero conjunto de regras ou habilidades para se fazer algo.
É interessante observar como pintar, esculpir ou produzir um texto literário é um processo lento. O artista não pode ser impaciente e nem preguiçoso.” Deus é paciência”, diz a personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas.
Quando vemos um quadro e os esboços feitos previamente pelo artista constatamos, muitas vezes, que a obra final pouco tem a ver com o esboço inicial; que no exercício da criação houve uma alteração dos rumos iniciais.
A arte tem a ver com habilidades mentais e sensíveis que podem ser usadas para o bem ou para o mal, como os conhecimentos. Uma reflexão mais profunda sobre a beleza e a verdade nos levam à conclusão que ambas devam caminhar juntas no processo de criação, que não podem ser excludentes.
Uma forma de arte revolucionária e pouco conhecida é a que vem sendo estudada e aplicada em centros avançados de estudos espalhados pelo mundo — verdadeiras escolas de adiantamento mental — e que consiste na criação do próprio artista, certamente a mais difícil de todas as artes: a arte de criar a si mesmo. É uma arte na qual o artista, o ser humano, cria a si mesmo deixando de ser o que é para chegar a ser algo melhor, maior, aperfeiçoado.
É uma arte difícil por tratar-se de uma recriação pessoal. É uma obra para toda a vida onde o artista é instruído no sentido de reconhecer em si todos os seus defeitos e imperfeições e, inspirado no propósito de evoluir, poderá esculpir um novo ser humano tornando-se artífice de si mesmo.
O cultivo dessa arte exige esforço, constância e observação. O artista deverá ser instruído, educado; e uma das primeiras lições consiste no aprendizado do querer ser melhor, aprender e evoluir.
Inspirado na obra maior que é a própria Criação, o ser humano poderá transformar-se no autor e ator de seus próprios dias, dono de seu destino e artífice do futuro, dando um salto mortal por sobre tudo o que tem estreitado sua visão e endurecido o seu coração.
Esta é uma arte com a qual podemos sonhar e realizar.

Nagib Anderaos Neto
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A Linguagem Ancestral

Deus não escreve livros, escreve homens, naturezas, o Universo. Este é o Verbo Divino. Homens escrevem livros, e a linguagem humana provem daquela – a ancestral - pois visa nomear uma escritura maior.
E de onde provêm as diversas línguas criadas pelos homens?
A linguagem - as palavras que deveriam ser utilizadas para nomear O Verbo e para que os homens se unissem neste trabalho - passou a ser instrumento de dissensão. Então surgiram as línguas, os afastamentos, a linguagem decaída, a babélica.
Se a palavra escrita é o corpo físico do pensamento, para se chegar a ele – que é invisível, incorpóreo –, poderemos fazê-lo através dela.
Se o corpo físico do homem, o visível, o palpável, guarda em suas profundezas uma inteligência, uma sensibilidade, uma essência invisível e intocada, ele também - o espírito humano - assemelha-se ao pensamento, à essência invisível da palavra.
“O essencial é invisível aos olhos”, escreveu o inspirado piloto francês.
Assim, o espírito, como o pensamento – invisíveis e essenciais que são –, como os sentimentos, os sonhos e as recordações, deveria merecer de nós uma atenção maior.
E como ocupar-se mais de si mesmo? Como conhecer-se melhor?
A tarefa não é fácil, mas também não é impossível; começando por deixar de ocupar-se tanto dos outros e do que nos cerca, cultivando um olhar reflexivo e auto-observador. Somos especialistas na observação do que acontece ao nosso redor, mas ausentes de nós mesmos. Não chegamos a aproveitar as lições do que nos cerca para aperfeiçoar nossa própria pessoa, que é o que mais deveria nos interessar.
Não somos muito diferentes de um pensamento que pode ser bom ou mau; que necessita reproduzir-se para sobreviver como espécie; que pode evoluir nos curtos anos de vida física.
Deus quer que o ser humano use a sua inteligência e o seu coração para aproximar-se da Verdade que se confunde com o aperfeiçoamento humano. Ele não é o pai vingativo que atemoriza seus filhos e se regozija com guerras fratricidas que os insensatos dizem fazer em Seu nome.
Lutar pela liberdade própria e social, procurando respirar as verdades imanentes à natureza, e as que brotam da própria inteligência e do próprio coração, é a sensata e eloqüente postura do aprendiz que, apesar de reconhecer as suas limitações, não se conforma com a imobilidade e a submissão.
Assim, para que não sejamos letra morta num livro inútil e sem vida, deveremos aprender a escrever a própria história com letras visíveis e invisíveis, como autores e atores, ao invés de espectadores passivos a assistir aos dramas vividos por tantos que sofrem por não pensar, por falar línguas diversas, por estar sempre a se desentender. E talvez possamos recuperar a linguagem perdida que na infância da humanidade sabíamos tão bem pronunciar.

Nagib Anderáos Neto
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Bruna, Borges e o Outro

Onze de Agosto de 2001.Biblioteca Nacional em Buenos Aires.A palestra por se iniciar. No saguão, enquanto uns fumavam e outros contemplavam a galeria com as fotos dos imortais, um jovem brasileiro cochicha nos ouvidos da namorada: “Quem é este tal de Borges?”

A palestra versaria sobre o centenário de nascimento de outro argentino ilustre, o pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche.

Recordei-me da linda atriz brasileira que se transformara em escritora e que numa infeliz entrevista dissera que nunca ouvira falar de Fernando Pessoa que eu conhecera tardiamente, em setenta e dois, como o poeta argentino, em noventa e dois. Quanta perda de tempo! Tempo perdido não volta mais, ele flui como o rio de Heráclito e a areia que desce firme e decidida na ampulheta.

Por muito tempo achei que àquele jovem iletrado faltava muita coisa. Depois compreendi que todos fomos iletrados um dia - se ainda não o somos - , e muitos tiveram paciência conosco. Bondade, mais bondade é o que faz falta; palavras mágicas que ecoavam em meus ouvidos há muito tempo, e que eu deveria ter lido nuns escritos de González Pecotche. Se eu não tenho paciência com os outros, como poderiam tê-la comigo? A Natureza ensina paciência. O sol ensina paciência.

Recordei-me do Livro de Areia, do Outro, onde Borges maduro encontrava com o outro Borges, o jovem, em 1969, ao norte de Boston, em Cambridge, e os dois conversam sobre a eternidade, a juventude, a velhice, a morte e a arte. Falam da família, do pai morto e seus gracejos contra a fé, o defunto com uma mão de criança sobre a mão de um gigante, e um Jesus a falar como um gaúcho através de parábolas, para não se comprometer.

Borges deixou um exemplo grandioso: a criação não depende dos olhos sãos, do computador ou da parafernália eletrônica. Foi capaz de produzir a parte ponderável de sua obra depois de adentrar a escuridão, desmistificando a idéia de que a tecnologia e a visão física perfeita pudessem trazer uma felicidade completa. Borges criou e sobreviveu, apesar da cegueira, como Cervantes, apesar da prisão.

O maior cego não é o que não pode ver, mas o que não quer entender.

Falaram sobre livros e sobre Whitman – o incapaz de mentir -. Num de seus poemas, Walt Whitman descreve a desconcertante experiência ao assistir a uma palestra de um grande astrônomo que apresentava seus gráficos, números, mapas, diagramas, e se enfastia, se aborrece com aquelas explicações acadêmicas, saindo, então, do auditório, e, à rua, “no ar úmido e místico da noite” pode olhar, “em perfeito silêncio, para as estrelas”.

A expressiva lição da realidade da infinitude do Universo que nos cerca bem como do mundo mental que a tudo interpenetra e compõe deveria ser muito mais bela e instrutiva do que a mera racionalidade pudesse descrever. ”Não posso conceber nenhum ser mais maravilhoso que o homem”, dizia o poeta da meia – noite, do sono, da morte e das estrelas, que se autoconsiderava uma espécie de deus libertador americano.

A poesia de Whitman é saudatória, como a de Fernando Pessoa, quando o poeta português saúda-nos, deseja-nos sol e nos dá a sua poesia. Ao despedir-se dos seus versos, do alto de sua janela, após concluir que passa e fica, como o Universo, deseja para si mesmo – e para sempre – um cenário como aquele: um dia cheio de sol. No poema Eros e Psique, ele relata a aventura do Príncipe fadado a procurar pela Princesa dormida e descobre, ao final da aventura, que ele mesmo era a Princesa que dormia.

Para González Pecotche, existe no interior de cada indivíduo um ser encantado, adormecido, encoberto e escondido que quer se manifestar. O encontro de Borges consigo próprio num tempo qualquer do passado poderia estar representando a culminação de uma procura incansável que muitos jamais chegam a concluir.

Depois de alguma conversa, Borges e o outro sobrenaturalmente se despediram e nunca mais se viram, nunca souberam ao certo se aquele encontro e aquela conversa foram reais, da mesma forma que eu não sei se aquele jovem brasileiro era uma personagem ou alguém que realmente existiu.

Nagib Anderaos Neto
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Café com Letras

Livraria Café de La Barca, San Carlos de Bariloche, inverno de 2006.
Livros, café, tango, jazz e música clássica. Nos últimos vinte anos noticia-se que caiu pela metade o número de leitores entre os jovens no mundo.
“Criem cafés literários”, teria sugerido um célebre escritor.
No menu do café, uma sugestão para o dia: “Busque o lado bom de todas as pessoas”.
A Cordilheira, com sua alva imensidão lembra o mar, tão belo e instrutivo, movimento perpétuo e elementar como a solidão gelada da Patagônia.
Naquela pequena livraria reencontrei Georg Büchner no livro dedicado a Lenz em cujo prólogo vi-me transportado ao passado onde a descrição da curta trajetória do dramaturgo alemão - que morreu precocemente aos 27 anos - ressaltava algumas obras importantes como “A Morte de Danton” que havíamos montado há 40 anos no inicio da faculdade.
“A arma da revolução é o terror”, bradava Robespierre, a personagem de Büchner que eu interpretara em tantos ensaios da magnífica e histórica peça que nunca chegamos a estrear. Havia uma grande angústia, uma enorme carga dramática no texto cujas motivações agora ficavam mais claras: Büchner estava a fugir da polícia e da justiça por ter criado uma sociedade de direitos do homem em 1835, Estrasburgo, e se opor aos poderosos, aos opressores, aos impostores, ansiando por uma Revolução Alemã, à semelhança da Francesa. A polícia o vigiava, e neste dia de grande excitação escreveu “A Morte de Danton”, produto de uma longa pesquisa que fizera e que espelhava o fatalismo da história.
Escrevera numa carta à família que para a classe majoritária existem somente duas molas: a miséria material e o fanatismo religioso. “Todo o partido que saiba manejar estas molas triunfará. O nosso tempo precisa de ferro e pão, e depois de uma cruz, ou qualquer outra coisa.”
Büchner recuperou Lenz – o poeta proscrito que fora amigo de Goethe e admirado por Kafka - , que se transformou num paradigma para a psiquiatria por ter sido a primeira descrição exata de esquizofrenia, para a qual Nietsche lhe colocou um nome : o niilismo, a filosofia do nada.
A pequena livraria na Patagônia era uma miniatura da grande e majestosa Ateneu em Buenos Aires, na Santa Fé, com o grandioso café situado no palco do majestoso teatro que tinha como platéia e galeria estantes e mais estantes de livros.
Não, o povo não precisa de pão e circo, senão de livros, bons livros, e escolas, boas escolas que ensinem as crianças a pensar, ao invés de papagaiar historias antigas e sem sentido ou a decorar os teoremas do preconceito.
Quando se vê as estatísticas sobre produção e consumo de livros no Brasil, número de livrarias e desenvolvimento do mercado livreiro nos últimos dez anos, chega-se à conclusão que o quadro nacional é desalentador.
Como reverter este quadro? O que fazer para que os jovens passem a ler mais e a matar menos o tempo em inutilidades?
Afinal, por que ler é importante?
Não falemos da literatura imprestável, dos enganadores, dos impostores, dos que vendem palavras sem conteúdo, auto-ajudas que pouco valem. Falemos das obras de qualidade que ajudam a pensar, a criar, a se comunicar.
O leitor é também um criador orientado pelo autor; constrói personagens, convive com eles, extasia-se, sofre, transporta-se para outros locais e outras épocas, busca soluções, pensa, sente e vibra com o desenrolar do romance ou do conto, reflete com as reflexões do autor, amplia seus conhecimentos sobre o mundo e sobre os homens, aprende a ouvir, falar e escrever.
Através da leitura e da escrita podemos chegar a muitas partes e a muitos mundos, visitar o passado e arrojarmo-nos para o futuro, reviver ou viver por antecipação.
Cada bom livro é uma aventura particular e única que pode ser muito útil a quem empreende esta viajem ímpar. Os livros são como os seres humanos: nascem, tem um tempo de vida e desaparecem. Podem surgir depois de muitos anos em novas edições, se forem muito bons. Há os que têm conteúdo e os vazios, os bons e os maus; os inteligentes e os ignorantes. Sua leitura pode ajudar a leitura da própria vida, dos próprios dias, do próprio acontecer.
Devemos todos ler muitos livros, bons livros, e dar um exemplo para que os jovens aprendam a gostar de ler.
Há um livro, em especial, ao qual devemos dar a máxima atenção a cada dia de nossa existência: o nosso próprio livro, o livro de nossa vida, aquele que vamos escrevendo e lendo a cada dia, no qual somos autores e personagens, onde ficará consignada a nossa trajetória humana nesta breve passagem pela Terra, o livro dos livros, o livro da vida, a obra pessoal que cada um de nós pode e deve realizar.
Criemos, então, livros, bons livros, e livrarias, e cafés literários, como bem aconselhou um célebre escritor.

Nagib Anderaos Neto
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Um Presidiário em Liberdade

Em depoimento recente, o ex-presidiário dizia que descobrira ser o tempo o mais valioso que existe. Naqueles trinta anos de cárcere tornara-se um escritor. A vontade de escrever e o amor por uma mulher que o esperava mantiveram-no vivo. Embora preso, pudera realizar um grande vôo de liberdade construindo em si mesmo uma nova pessoa. Compreendera que o maior presídio é a ignorância; que os barrotes dos preconceitos mantêm os homens atados a tradições inúteis, mergulhados numa inércia mental e volitiva que prostra a inteligência e endurece os corações, mesmo que caminhando em aparente liberdade pelas ruas. Soubera que Cervantes havia criado o Quixote na prisão. E Borges sua obra na escuridão. E que Mandela lembrava do cárcere com gratidão por aqueles longos anos em companhia de si mesmo programando uma liberdade sonhada para sua querida África do Sul. Tornara-se amigo do tempo e soubera usá-lo para transformar a sua vida, seu passado, seu presente e seu futuro. Pudera pensar e planejar, viver por antecipação o encontro com a mulher amada fora daquela pequena cela, do casulo onde a crisálida se transformava.Aprendera que a verdadeira liberdade é a de pensar, de criar, de respirar com os pulmões, com a inteligência e com o coração. Conhecera Fernando Pessoa e Cesário Verde, o poeta – camponês que andava preso em liberdade pela cidade, “e triste como esmagar flores em livros e por plantas em jarros”, pois na cidade tudo é falso e antinatural. Compreendera que a fuga do tempo existe para quem não consegue retê-lo e multiplica-lo, pois o tempo passa muito rápido e escraviza a pessoa que julga que tempo seja dinheiro e, como tal, sempre lhe falte; que os dias que se sucedem monotonamente são noites mentais, pedaços de vida que se desprendem da pessoa deixando o saldo do vazio interior, a sensação de inutilidade, o esquecimento, o temor pela morte que caminha em sua direção a passos largos; que o tempo de vida do ser humano pode transcender a mensuração limitada das horas, dos dias e dos anos que se somam na trajetória definida entre o instante do nascimento e a transição para a morte; que os tempos de evolução se caracterizam pelo esforço continuado na busca do conhecimento e na ampliação da consciência; para aproveitar o tempo deveria aprender a pensar com liberdade e criar para si mesmo uma nova vida com a qual pudesse se encontrar no futuro livre dos barrotes físicos e mentais.

Naquele presídio descobrira que a paciência era irmã do tempo; que no mundo real dos anônimos heróis que lutam no dia-a–dia nada era fácil, nada se conseguia magicamente; e que a paciência era uma arma poderosa.

Ser paciente como o Sol e como a Natureza que se defende das agressões humanas; como a mãe que espera o tempo certo da gestação e a semente que chegará um dia a florir. Aprendera a lutar e a esperar; que o tempo e a vida se confundiam numa dimensão onde não existia o passado, o presente e o futuro, senão uma eloqüente eternidade.

Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

Thursday, July 27, 2006

A Observação Consciente

É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si mesmo.Julga-se, em geral, baseando-se em apreciações alheias, pelo o que se ouviu dizer e não pelo que realmente se observou. A observação consciente – conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências – deveria servir, antes de tudo, para corrigir as nossas imperfeições. Assim, o que vemos de desagradável na conduta de uma outra pessoa deveria levar-nos, num primeiro momento, a verificar se não existe em nós mesmos aquela característica negativa que compõe a nossa personalidade.Mas o ser humano não sabe olhar para si próprio; olha o mundo como se não fizesse parte dele; vê, mas não enxerga; não entende que todo aquele cenário está aí para transformá-lo em diretor e ator do espetáculo de sua própria vida. Ao invés disto, gasta seu tempo olhando, admirando ou criticando o espetáculo de outras vidas, de outros mundos, esquecendo-se de si próprio, e que dentro dele existe um pequeno mundo, um pequeno universo no qual poderia viver e ser feliz.
Esta falha gritante das culturas que nos precederam –com raras e honrosas exceções para alguns pensadores que podemos contar nos dedos das mãos – engendrou nas mentes humanas a tendência ao escapismo,a viver somente fora de sua realidade interior. O ser humano está sempre a fugir de si mesmo: no trabalho, nas diversões, no estudo, nas leituras, nas platéias; não consegue conectar aquilo que acontece à sua volta com sua realidade interior. Olhar, por exemplo, a Natureza e tomar para si o exemplo de paciência, movimento, renovação, evolução, e exercitá-lo no diário existir através de sua capacidade de pensar, quer dizer, de criar e se modificar.
Na verdade, vamo-nos transformando em atores que decoram e interpretam falas escritas por pessoas que nos antecederam, que desconhecemos, e que foram atores como nós, repetindo frases e cenas que compõem as tradições que – como disse certa vez González Pecotche – são o cemitério das idéias.
Romper com esta inércia cultural é o grande desafio desta nova humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si mesmo e educar-se, o homem do futuro, certamente, transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência que nos encontramos num cenário mais condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.
Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates, a personagem de Platão, dá-nos a pauta de uma conduta inicial, caso queiramos realmente aprender e evoluir. Será necessário arrancar a máscara da personalidade que nos leva a aparentar ser aquilo que não somos, mas que imaginamos ser; se ela não tiver aderido à epiderme psicológica, iniciaremos o caminho para construir a própria individualidade.

Nagib Anderaós Neto
andergatti@terra.com.br
www.nagibanderaos.com.br

A Alegria Traz a Vida

Para a Logosofia, uma das formas de se ampliar a própria vida é unir a alegria que se sente à alegria sentida por nossos semelhantes; unir os esforços para que as vidas interligadas se transformem numa vida muito grande, gigantesca.
E como tornar a própria vida mais alegra?Como fazer para que a alegria não seja passageira?
Se o desgosto e a tristeza trazem a depressão, a alegria traz a vida, ou melhor, a alegria é vida, como afirmou certa vez González Pecotche, o criador da Logosofia. Não a alegria efêmera, mas” a que surge da consciência, que enche de vida e que não se manifesta só no rosto, como a que proporciona fugazes momentos de prazer; refiro-me à alegria que, qual uma tocha, surge da consciência ao experimentar que se existe “, complementou o pensador. Essa alegria é a manifestação da própria vida e deveria nos acompanhar sempre. É uma nova vida que todos podemos viver.
Um dos grandes objetivos do conhecimento logosófico é orientar o ser humano a pensar por própria conta, com liberdade, dignificando a própria espécie e afastando-se da brutalidade, da animalidade. Essa libertação traz uma grande alegria, pois os barrotes da ignorância e o presídio dos preconceitos transformam o ser humano num ente irascível, inimigo de si mesmo e de seus semelhantes. A alegria íntima de quem pensa é inefável porque pensar é criar, e o maior artista, o mais alegre, é o que consegue criar-se a si mesmo transformando-se numa pessoa melhor.
Certa vez González Pecotche escreveu que “a Logosofia é uma nova forma de sentir e conceber a vida”. Essa nova forma implica a ampliação da capacidade de sentir, pensar e ser consciente. E ampliar a consciência significa integrar novos conhecimentos, hierarquizar sentimentos e pensamentos; ser mais feliz.
A alegria é um estado pessoal expansivo. No momento que se a experimenta, a vida se amplia.
Para ser feliz é necessário querê-lo no fundo do coração, e buscar essa felicidade nos mínimos aconteceres diários, e registrá-los, qual num álbum de fotografias, para que não caiam no esquecimento e possam substanciar os dias futuros.
No fundo, todos os seres humanos buscam a felicidade e, ao não encontrá-la, caem na depressão. Isto porque se concentra a busca num só ponto e, ao não realizá-la, tudo desaba. Será necessário buscar a felicidade em vários aspectos da vida e conformar-se com pequenas vitórias, singelos sucessos, diminutas realizações que, acumuladas, podem ser as contas de um formoso colar chamado felicidade que é oposta do desânimo, do abatimento e da depressão.

Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

González Pecotche e a Logosofia

Carlos Bernardo González Pecotche faleceu em quatro de Abril de 1963 deixando uma vasta obra bibliográfica e uma Escola de Adiantamento Mental com sedes na Argentina, Uruguai e Brasil.
A Logosofia-ciência original de sua criação-continuou a ser estudada nas diversas sedes da Fundação Logosófica em Prol da Superação Humana que conta hoje com diversas filiais na América, Europa e Oriente Médio.
O objetivo desta nova ciência é o estudo do ser humano em sua configuração psicológica e espiritual. Para González Pecotche, viver deveria significar muito mais do que ser um mero espectador do teatro da vida; mais do que um repetidor de frases e gestos criados por outras pessoas. E para que se pudesse chegar à compreensão clara do significado da vida e seu conteúdo, seria necessário conhecer e exaltar o amor à própria vida, à própria existência. Não o amor egoísta, separatista, que distancia os seres humanos por interesses diversos, raças, ideologias ou religiões, mas o verdadeiro, o que exalta cada criatura, cada gesto, cada amanhecer como um motivo de vida, de alegria e de verdade.
“A Sabedoria de Deus está plasmada na criação, enquanto que a do homem consiste em conhecê-la e servir-se dela para superar as etapas evolutivas de seu gênero”, escreveu o pensador. E conclui que “o homem busca o conhecimento porque é o meio pelo qual chega a compreender a sua missão e a sentir a presença em sua vida deste ser imaterial que responde ao influxo da eterna Consciência Universal e é portador, através dos tempos, da existência individual”.
Portanto, o conhecimento move o homem para que se eleve, para que deixe de ser o que é para ser algo melhor; e é o grande agente criador das possibilidades humanas.
Na certidão de óbito do ilustre pensador consta a profissão de escritor, autor de composições literárias ou científicas. No dizer do advogado José Antonio Antonini, estudante de Logosofia e editor que teve a oportunidade de conhecer pessoalmente González Pecotche, “aqui se sobressai uma dessas particularidades do escritor: ele é autor de composições, não somente de uma ou outra modalidade, senão de muitas, tanto literárias quanto científicas. E fazia-o valendo-se de formas literárias conhecidas, como o romance, o diálogo, a expositiva, a poesia, o tratado, etc, mas sempre vinculando tais formas ao gênero científico, visto ser o criador de uma ciência que denominou Logosofia, uma especialidade científica e metodológica que se ocupa da reativação consciente do indivíduo”.
“Também foi editor, ilustrador, pintor, músico e compositor. Sua partitura sobre Recordações Egípcias, ele a executava em uma rádio Argentina”.
“O que o distinguia da generalidade dos escritores era precisamente esta aptidão de incursionar em todos os matizes da composição literária, vinculando o leitor aos princípios metodológicos e científicos desta ciência da vida ou do invisível que se encontra em cada ser”.
“A vida do ser humano tem dois grandes objetivos: evoluir na direção da perfeição e tornar-se um verdadeiro servidor da humanidade”. Com essas palavras o pensador sintetizou o conteúdo da direção apontada por uma grande vontade que habita em todos os corações humanos e, tal qual uma lei, impulsiona-o para ascender às alturas inefáveis do conhecimento e da realização humanas.
Dentre as grandes lições deixadas pelo grande humanista, destaca-se a da gratidão ao bem recebido que nos permite mantê-lo em nossas mentes e em nossos corações como um talismã que haverá de substanciar os nossos dias futuros e iluminar o caminho dos que virão trilhá-lo.
Através da gratidão e da recordação, o espírito daqueles que beneficiaram a humanidade em sua breve passagem pela terra haverá de sobreviver e prosseguir em seu silencioso e humanitário trabalho, invisível aos olhos de muitos, mas sólido e consistente sob a perspectiva da História.


Nagib Anderáos Neto
andergatti@terra.com.br
www.nagibanderaos.com.br

Wednesday, July 26, 2006

Logosofia

"Especialidade científica e metodológica que trata da reativação consciente do indivíduo".
Nagib Anderáos Neto

Amor

O que é o amor
Senão eu mesmo
Em estação de compor em par
As peças díspares?

Consciência

"É a essência oculta dos conhecimentos que a integram". Carlos Bernardo González Pecotche