Tuesday, August 15, 2006

O DITADOR DEVE MORRER

O artigo fora publicado em 1941 numa importante revista cultural de Buenos Aires e chegou às minhas mãos recentemente. Naquela época o mundo estava infestado de personagens teatrais que pretendiam resolver todos os problemas com discursos inflamados, violência e enganação. Nada muito diferente do que ocorre hoje em dia quando os atores são mais astutos e tão tergiversadores como aqueles: Mussolini, Hitler, Perón e Stalin que fizeram escola pelo mundo afora.

O artigo falava dos verdadeiros ditadores e não daqueles homúnculos bois-de-piranha que passaram para a história como símbolos da malignidade ou bodes expiatórios de grandes grupos e nações. Sua atualidade é indiscutível porque os verdadeiros ditadores não morreram, continuam muito vivos, porque são muito sabidos, muito mal sabidos.

“Cada ser humano, desde que balbucia as primeiras palavras e põe de manifesto seus desejos, mostra com clareza meridiana a presença, dentro de si, de um ditador que se empenha por impor a própria vontade pretendendo, como conseqüência de tão caprichosa inclinação, que todos lhe façam o gosto, quer dizer, que lhe obedeçam.”

Com esse lance ágil da inteligência o autor tira o foco das atenções daquelas histriônicas figuras centrando-o no próprio leitor: cada ser humano carrega dentro de si um ditador que deve ser eliminado; aquele ser inflexível que imagina que o mundo existe para servi-lo; que vê no opositor um inimigo; que não aceita nenhuma idéia diferente da própria; que traz no cenho carregado a imagem do dominador implacável.

E o autor prossegue explicando que esse ditador é a “soberba embebida de amor próprio” e que é muito difícil matá-lo. E finaliza concluindo que “a sensatez adverte que todo proceder correto, nobre e amplo haverá de inspirar simpatia e confiança, enquanto que a postura caprichosa, autoritária e intransigente, conspirará contra a própria personalidade”.

Quando González Pecotche escreveu esse artigo deveria estar com quarenta anos. O jovem pensador iniciara, onze anos antes, um grande movimento humanista que da Argentina se espalharia pelo mundo. Conhecido e reconhecido por sua inteligência e coragem, criara, no início daquela década, a revista Logosofia que cumpriria importante papel na divulgação de suas idéias num período em que a publicação de livros estava dificultada em função da grande guerra engendrada por terríveis ditadores.

Por isso dissemos a atualidade do conteúdo comentado: cada um de nós haverá de identificar, combater e eliminar o ditador pretensioso que se disfarça, qual camaleão, nas profundezas da própria psicologia.

Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br
Extraído do Livro “Guardados Que Vivem”

Friday, August 11, 2006

González Pecotche e a Logosofia

Carlos Bernardo González Pecotche nasceu em 11 de Agosto de 1930 e faleceu em 4 de Abril de 1963 deixando uma vasta obra bibliográfica e uma Escola de Adiantamento Mental com sedes na Argentina, Uruguai e Brasil.
A Logosofia - ciência original de sua criação - é estudada em diversas sedes da Fundação Logosófica em Prol da Superação Humana que conta hoje com filiais na América, Europa e Oriente Médio.
O objetivo desta nova ciência é o estudo do ser humano em sua configuração psicológica e espiritual. Para González Pecotche, viver deveria significar muito mais do que ser um mero espectador do teatro da vida; mais do que um repetidor de frases e gestos criados por outras pessoas. E para que se pudesse chegar à compreensão clara do significado da vida e seu conteúdo, seria necessário conhecer e exaltar o amor à própria vida, à própria existência. Não o amor egoísta, separatista, que distancia os seres humanos por interesses diversos, raças, ideologias ou religiões, mas o verdadeiro, o que exalta cada criatura, cada gesto, cada amanhecer como um motivo de vida, alegria e verdade.
“A Sabedoria de Deus está plasmada na criação, enquanto que a do homem consiste em conhecê-la e servir-se dela para superar as etapas evolutivas de seu gênero”, escreveu o pensador . E conclui que “o homem busca o conhecimento porque é o meio pelo qual chega a compreender a sua missão e a sentir a presença em sua vida deste ser imaterial que responde ao influxo da eterna Consciência Universal e é portador, através dos tempos, da existência individual”
Portanto, o conhecimento move o homem para que se eleve, para que deixe de ser o que é para ser algo melhor; e é o grande agente criador das possibilidades humanas.
Na certidão de óbito do ilustre pensador consta a profissão de escritor, autor de composições literárias ou científicas. No dizer do advogado José Antonio Antonini, estudante de Logosofia e editor que teve a oportunidade de conhecer pessoalmente González Pecotche, “aqui se sobressai uma dessas particularidades do escritor: ele é autor de composições, não somente de uma ou outra modalidade, senão de muitas, tanto literárias quanto científicas. E fazia-o valendo-se de formas literárias conhecidas, como o romance, o diálogo, a expositiva, a poesia, o tratado, etc, mas sempre vinculando tais formas ao gênero científico, visto ser o criador de uma ciência que denominou Logosofia, uma especialidade científica e metodológica que se ocupa da reativação consciente do indivíduo.”
“Também foi editor, ilustrador, pintor, músico e compositor. Sua partitura sobre Recordações Egípcias, ele a executava em uma rádio Argentina”.
“O que o distinguia da generalidade dos escritores era precisamente esta aptidão de incursionar em todos os matizes da composição literária, vinculando o leitor aos princípios metodológicos e científicos desta ciência da vida ou do invisível que se encontra em cada ser”
“A vida do ser humano tem dois grandes objetivos: evoluir na direção da perfeição e tornar-se um verdadeiro servidor da humanidade”. Com essas palavras o pensador sintetizou o conteúdo da direção apontada por uma grande vontade que habita em todos os corações humanos e, tal qual uma lei, impulsiona-o para ascender às alturas inefáveis do conhecimento e da realização humanas.
Dentre as grandes lições deixadas pelo grande humanista, destaca-se a da gratidão ao bem recebido que nos permite mantê-lo em nossas mentes e em nossos corações como um talismã que haverá de substanciar os nossos dias futuros e iluminar o caminho dos que virão trilhá-lo.
Através da gratidão e da recordação, o espírito daqueles que beneficiaram a humanidade em sua breve passagem pela terra haverá de sobreviver e prosseguir em seu silencioso e humanitário trabalho, invisível aos olhos de muitos, mas sólido e consistente sob a perspectiva da História.


Nagib Anderáos Neto
www.logosophy.net
www.nagibanderaos.com.br

Friday, August 04, 2006

Adolescência : A Expulsão do Paraíso

Qual o mistério da transição entre a infância e a idade adulta? Por que a criança deixa de ser o super-homem do imaginário infantil para ver-se, repentinamente, desprovida de seus poderes e do domínio sobre todas as situações?
O mundo da criança é o paraíso dos homens. Ali não há sofrimento pela inexistência do entendimento sobre a realidade; de obrigações e responsabilidades. Em sua incipiente inteligência tudo se resume na recordação e na imaginação; decora o que lhe é ensinado sem chegar a entender; imagina o Universo que lhe pertence e é feliz. Para ela tudo é simples e fácil. Sua natureza interna e super-humana acompanha-a sempre, suprindo a falta de recursos de sua mente em desenvolvimento, protegendo-a em casos de perigo iminente e fazendo-a sorrir em seus sonhos encantados.
Ao entrar na adolescência, o paraíso gradativamente desvanece. O impulso genético transforma seu corpo e sua alma; aquele mundo encantado vai ficando cada vez mais distante; começa a entender o mundo que a cerca e a desentender-se consigo mesma. O paraíso perdido transforma-se numa remota e angustiosa recordação.
Ao recobrar seu equilíbrio psicológico e emocional - em plena juventude - daqueles ditosos dias da infância resta pouco, muito pouco.
Qual o significado desta experiência de vida pela qual todos passam? Por que esta queda das alturas metafísicas do paraíso para um mundo incompreensivelmente materializado e cheio de problemas?
Existe a possibilidade de se reconstruir este mundo dentro de si mesmo como uma exigência da evolução - estratégia divina que permite ao ser humano fazer renascer a criança dentro de si mesmo e ressurgir o paraíso perdido através da organização e conhecimento de seu próprio mundo interior.
Uma verdadeira e eficiente pedagogia deveria ser capaz de orientar crianças, adolescentes e jovens a transitar do paraíso da infância até a realidade do mundo dos homens sem experimentar os desvios que podem levá-los à delinqüência, ao vício ou à loucura. Deixar o paraíso sabendo que um dia a ele poderão retornar; guardando dentro de si a criança para que renasça no futuro que eles próprios construirão.
Uma nova Pedagogia requer a reeducação dos adultos que terão a seu cargo a instrução da humanidade do futuro. O que tem sido prática corrente na educação infantil deverá ser revisto, reestudado. Os sistemas de instrução e os conceitos básicos utilizados não têm funcionado convenientemente. Instrui-se para tudo; menos para o que mais interessa: a convivência pacífica do indivíduo consigo mesmo e com os outros seres humanos, seus irmãos.
A humanidade está dividida em raças, religiões, camadas sociais, culturais, partidos políticos, etc. Os sistemas pedagógicos são divisionais, separatistas. Cada agrupamento arvora-se como dono absoluto da Verdade única. Não compreende que a Verdade única surge da união dos seres humanos pela compreensão de sua realidade fragmentada da Grande Realidade Universal da qual todos formam parte.
Às crianças ensina-se que devem ser as melhores em tudo o que fazem; melhores que as outras. Inocula-se assim, desde muito pequenas, o nocivo e maligno vírus do separatismo, de uma pseudo-superioridade; a ilusão da felicidade alcançada quando se chegar a ser mais e melhor do que os outros. O melhor da classe, o melhor no esporte, o melhor profissional, o mais admirado.
Na Pedagogia da Escola do Futuro, as crianças serão instruídas no sentido de serem melhores que elas mesmas; que o aperfeiçoamento pessoal tenha um cunho essencialmente humanista: ser melhor sendo mais útil para si mesmo e para os seus semelhantes; ser melhor para conviver harmonicamente com os seus semelhantes.
O amor ao próximo deixará de ser uma figura de retórica para representar a compreensão cabal de um fragmento da Grande Verdade e, como tal, será vivenciado, experimentado, e não apenas discursado.
Sem o entendimento não há compreensão. Sem compreensão não há realização. Sem realização, os seres humanos seguirão inimigos de si mesmos; filhos deserdados de um Criador que não chegaram a compreender.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

Thursday, August 03, 2006

A Outra Guerra

Seria a guerra um fato isolado ou a culminação de um processo de violências, agressões e incompreensões que se vêm somando através de um longo tempo?
E o que dizer da guerra que se trava a todo o dia, a toda a hora, no cenário da política, das relações humanas e familiares?
A outra guerra, a da mídia e a das manchetes dos jornais ¾ que passam a vender mais nos tempos de grandes crises ¾ não é outra que o resultado daquela, microscópica e quotidiana.
Deus não tem nada a ver com essas guerras. Convida-nos a refletir sobre as causas de tantos desentendimentos. O Deus único, acima de qualquer ideologia, que deixou impressa nos corações e mentes humanas a sagrada inscrição da evolução e da fraternidade.
Não podemos ficar indiferentes ao sofrimento dos outros e à barbárie; às milhares de crianças órfãs e aos lares dilacerados; às políticas desumanas que jogam povos contra povos para atender mesquinhos interesses materiais.
Não podemos ficar indiferentes ao ódio disseminado nas mentes infantis pelos senhores das guerras que as transformam em veículos do terror gerado em mentes pervertidas por séculos de rancor.
Deveremos seguir lutando pelo direito de pensar com liberdade para não converter os nossos filhos em autômatos, em selvagens, em animais incapazes de pensar e de valorizar a vida humana como algo sagrado. Esta animalização é a irracionalidade, a anulação de toda a possibilidade de evolução, a negação da civilização.
A verdadeira liberdade é a de pensar. Enquanto estivermos presos a preconceitos seculares que nos têm dividido em raças, credos e ideologias seremos escravos destas idéias retrógradas na ilusão de um liberalismo que se volta contra nós e nossas famílias como as bombas-assassinas que caem por toda a parte.
O que é, afinal, o terror?
Não são terroristas os que assaltam nas esquinas? Não são terroristas os que seqüestram jovens inocentes e pais-de-família? Os que invadem a propriedade alheia? Os que ameaçam e fazem chantagem?
O terror é um estado de grande pavor ou apreensão, grande medo ou susto. O terrorismo é o modo de coagir, ameaçar as pessoas impondo-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror.
Como se vê, o terror está presente em muitas partes e todos temos a oportunidade e a possibilidade de combatê-lo desde aqui, de um país sul-americano duvidosamente pacato.
A pobreza disseminada pelo mundo tem gerado uma insatisfação global habilmente manipulada por déspotas que insuflam o ódio contra o mundo desenvolvido e dito livre, e justificada pela tergiversação religiosa que maldosamente coloca Deus na linha de frente de cruzadas suicidas.
Deus quer a vida, o entendimento e a harmonia. Está presente em cada criatura humana que merece de seu semelhante o respeito e a consideração que cada um deve a si mesmo e à Grande inteligência imanente à Sua Obra.
O Deus oculto, o Deus da Verdade, murmura no silêncio de um alvorecer e no milagre de um nascimento que Ele não é o pai vingativo que joga seus filhos, uns contra os outros, nas guerras fratricidas que se repetem no decorrer dos tempos.
Não precisamos ser futurólogos ou profetas para vaticinar que em pouco tempo se acentuará a destruição do planeta que já vem acontecendo desde o início do século passado. Hoje temos os armamentos e a possibilidade efetiva da autodestruição.
Os profetas antigos vaticinaram o final dos tempos em função de ocorrências climáticas e geológicas sem imaginar que a ignorância e a perversidade humanas chegassem ao ponto de produzir armas para a destruição total.
A ignorância e a inconsciência têm permitido que o mal se tenha alastrado com tanta velocidade. O mal que se origina na mente humana tornou o ser humano insensível defronte das atrocidades que ocorrem ao seu redor e que é causada pela ignorância que cega os entendimentos e faz crescer nas mentes verdadeiros monstros psicológicos. A inconsciência torna os seres frios e insensíveis, incapazes de se conectar com uma vontade superior que quer a vida, o entendimento e a união.
O homem, figura ímpar nesta parte da criação, com sua capacidade de pensar, criar, ser consciente e ser humano, vem se transformando no antípoda do criador, no inconsciente, no cego, na fera que suplanta qualquer animal com suas atrocidades.
Se as coisas prosseguirem como estão, não será difícil prever momentos terríveis pelos quais todos haveremos de passar caso não haja um despertar das consciências que permita afastar da Terra as sombras da ignorância e da inconsciência.
Esta é a era das grandes maldades. As grandes descobertas e o grande avanço tecnológico têm servido para infernizar a vida humana.
O despertar das consciências é o único caminho para reverter a tendência suicida em que nos encontramos. Caso uma parte desta humanidade não experimente este renascimento, não serão as súplicas, nem os tratados, nem as alianças que haverão de salvar a Terra da destruição total.
Quando muitos homens compreenderem que só existe um caminho que cada um deverá construir para depois trilhá-lo individualmente; que a possibilidade de redenção dos próprios erros existe em cada criatura humana e que só ela poderá realizá-la, o ambiente mental deste mundo se transformará e poderemos reverter a tendência suicida que se instalou nas mentes humanas.
Esta transição caracterizará o final dos tempos obscuros e amargos e o início de uma nova civilização.

Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

A Observação Consciente

É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si mesmo.Julga-se, em geral, em função de apreciações alheias, pelo o que se ouviu dizer, e não pelo que realmente se observou. A observação consciente – conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências – deveria servir, antes de tudo, para corrigir as nossas imperfeições. Assim, o que vemos de desagradável na conduta de uma outra pessoa deveria levar-nos, num primeiro momento, a verificar se não existe em nós mesmos aquela característica negativa que compõe a nossa personalidade.Mas o ser humano não sabe olhar para si próprio; olha o mundo como se não fizesse parte dele; vê, mas não enxerga; não entende que todo aquele cenário está aí para transformá-lo em diretor e ator do espetáculo de sua própria vida. Ao invés disto, gasta seu tempo olhando, admirando ou criticando o espetáculo de outras vidas, de outros mundos, esquecendo-se de si próprio, e que dentro dele existe um pequeno mundo, um pequeno universo no qual poderia viver e ser feliz.
Esta falha gritante das culturas que nos precederam –com raras e honrosas exceções para alguns pensadores que podemos contar nos dedos das mãos – engendrou nas mentes humanas a tendência ao escapismo,a viver somente fora de sua realidade interior. O ser humano está sempre a fugir de si mesmo: no trabalho, nas diversões, no estudo, nas leituras, nas platéias; não consegue conectar aquilo que acontece à sua volta com a sua realidade interior. Olhar, por exemplo, a Natureza e tomar para si o exemplo de paciência, movimento, renovação, evolução, e exercitá-lo no diário existir através de sua capacidade de pensar, quer dizer, de criar e se modificar.
Na verdade, vamo-nos transformando em atores que decoram e interpretam falas escritas por pessoas que nos antecederam, que desconhecemos, e que foram atores como nós, repetindo frases e cenas que compõem as tradições que – como disse certa vez González Pecotche – são o cemitério das idéias.
Romper com esta inércia cultural é o grande desafio desta nova humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si mesmo e educar-se, o homem do futuro, certamente, transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência no qual nos encontramos num cenário mais condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.
Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates, a personagem de Platão, dá-nos a pauta de uma conduta inicial, caso queiramos realmente aprender e evoluir. Será necessário arrancar a máscara da personalidade que nos leva a aparentar ser aquilo que não somos, mas que imaginamos ser.Se ela não estiver aderida à nossa epiderme psicológica, poderemos iniciar o caminho para construir a própria individualidade.

Nagib Anderaós Neto
andergatti@terra.com.br
www.nagibanderaos.com.br

Tuesday, August 01, 2006

As Muralhas e as Pontes

Em “Outras Inquisições” Jorge Luiz Borges menciona o imperador Shih Huang Ti que ordenou que se construísse a infinita muralha da China para defender-se da invasão de bárbaros e que todos os livros existentes antes dele fossem queimados, possivelmente para defender-se dos pensamentos e das idéias que pudessem despertar seus súditos do sono da escravidão. Renunciar ao passado e isolar o império do mundo foram medidas que influenciaram o destino daquele povo. Ele, como tantos outros déspotas construtores de muralhas que pretendem isolar e separar os homens, não chegou a compreender que as soluções dos problemas humanos dependem do entendimento e da união entre os homens.

Não se pode apagar a Verdade que possa estar contida nos livros por estar ela estampada na Natureza e inscrita nas consciências humanas. E piores são as muralhas mentais que separam a alma humana de sua consciência tornando os homens violentos, irascíveis, desumanos e desunidos.

Os imperadores, os reis e os ditadores sempre estabeleceram uma sutil ligação entre teologia, tirania e despotismo. Os deuses inventados pelos homens sempre foram invocados para justificar atrocidades inomináveis, a escravidão e o terror. E não há maior terrorismo que a abominável submissão imposta aos seres pelo temor e pela mentira. Os escravizadores são os impostores de uma teocracia absurda que muitos chamam de política, que deveria ser a arte de gerir o bem comum, mas passou a ser a arte de chegar ao poder e permanecer nele.

O esférico Deus de Hermes Trimegistus, “uma esfera inteligível cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma”, não quereria, certamente, súditos escravizados, temerosos e ignorantes, porque vivendo em seus corações, não poderia ser contrário ou inimigo de Si mesmo, que tudo contém e que se confunde com a própria Criação.

Ao invés de construir muralhas, o ser humano do futuro construirá pontes mentais de entendimento, caminhos que unam os homens e que integrem os fragmentos perdidos para que possam, efetivamente, sentir e compreender o Deus invisível que está eloqüentemente presente nos grandes sentimentos, como na amizade, verdadeira ponte invisível que permitirá que a humanidade subsista.

Há algum tempo recebíamos a notícia da morte de um amigo e refletíamos que o que se ausenta deveria ser recordado sempre, para que não morresse pela segunda vez; a sua sobrevivência dependeria, em parte, dessa recordação que seria um tributo àquele espírito que continuaria vivendo entre nós.

Revendo um ensaio de um pensador americano sobre a amizade, não pude deixar de recordar aquele dia e fazer algumas reflexões sobre a amizade e a vida, pois serão os nossos amigos que estarão presentes nas celebrações da vida e da morte.

A amizade não pode ser uma ligação passageira e interesseira, senão a confortante experiência de estar acompanhado. E não se pode ser amigo de alguém se não se é de si mesmo.

O sopro divino que habita o coração dos que são amigos desconhece, ou deveria desconhecer, as grosseiras muralhas dos defeitos pessoais.

A amizade, em seu profundo significado, implica o amor que é a síntese e a essência do Deus único.

Um amigo é como um espelho que pode nos ajudar no caminho evolutivo. Nesta mágica relação poderemos aprender muito.

Diante da morte de um amigo, de uma ausência que parece ser irreparável, deveremos pensar que a vida celebra a vida, e que a alegria e a amizade sustentam o ser humano nos anos de sua vida terrestre. E que essa ausência não é mais que um sinal e um convite para que continuemos a nos ver e a nos falar através da recordação.

A amizade é um sentimento que dignifica a espécie humana; capaz de elevar a conduta pessoal a níveis de desprendimento, humanismo e heroísmo que chegam a surpreender a opinião do mais frio observador. No entanto, apesar de dignificar a espécie humana e de reconfortar os corações daqueles que a experimentam, é fugaz, efêmera. Quantos distanciamentos incompreensíveis! Quanto sofrimento nas separações que jamais se cogitou! Quanta incompreensão!

E a que se deve tudo isto? Por que o sentimento morre como se nunca tivesse existido?

Esta é a pergunta que cada um deve fazer a si mesmo ao contemplar a própria incapacidade por conservar o que um dia julgou justo, belo e imorredouro.

O que não se chega a compreender é que a manutenção da amizade exige a correspondência do afeto. A amizade é uma das maiores reservas morais que tem o ser humano. O esforço que se faça por preservá-la será largamente recompensado pela correspondência espontânea do afeto que se prodigou.

Um amigo é uma riqueza imponderável que nos acompanha sempre. Nem mesmo o distanciamento ou a morte poderá abalar uma amizade conscientemente cultivada. Cada amizade é como uma planta que, de semente, poderá florir se dispensarmos a ela o cuidado que exige tudo aquilo que queiramos que seja permanente em nossa vida.

Este sentimento superior deve ser despojado de qualquer interesse pessoal ou mesquinhez. Comecemos por ser amigos de nós mesmos; ensaiemos estas gentilezas, a sinceridade e o afeto com nossa própria pessoa, e quem sabe este sentimento deixe de ser palavra morta, expressão literária, e possamos experimentá-lo em sua plenitude em nossos corações.

Nagib Anderáos Neto
nagib@sobloco.com.br