Sunday, April 11, 2010

A Fé em Si Mesmo

Fechar os olhos para a realidade e aceitar ou acreditar na ficção que criamos ou que nos é imposta constitui a verdadeira e maior cegueira.

Saber significa ver a realidade, penetrar em sua superfície e aproximar-se da verdade. Tem muito a ver com sabor, experimentação, comprovação; significa liberar-se da cegueira da ilusão; afastar-se de tudo quanto se oponha à realidade, à verdade. Não pode haver outra fé que não seja em si mesmo; ninguém haverá de resolver por nós o que nos incumbe. A fé no que se ignora implica submissão; por esse motivo, os tiranos são hábeis em inventar mentiras para submeter pessoas humildes e simples e tristemente adjetivas de boa-fé.


O autoconhecimento deve implicar o afastamento das ilusões que se avolumam e que nos levam às desilusões que muito têm a ver com a depressão e a tristeza. Aprender a viver próximo da realidade é uma forma de estar próximo da felicidade.

A vida se amplia quando nela colocamos muitas atividades, muitas possibilidades de realização. E se algum fracasso sobrevier – coisa que invariavelmente acontece -, ele pode se transformar na base de um futuro acerto. O essencial é procurar estar sempre muito próximo da realidade.

Muitos problemas que enfrentamos são criados por nós mesmos, falta de previsão, por nossas ilusões, por nossa ignorância. A felicidade pode estar muito perto e não a estarmos vendo pela cegueira que nos impede contemplar a vida, as pessoas e o mundo com outros olhos, novos olhos que reconheçam em seus detalhes os verdadeiros momentos de alegria e felicidade: um amanhecer, uma amizade, um pequeno aprendizado, pois viver é, ou deveria ser para nós, um grande motivo de alegria e felicidade.

Aquilo que não se compreende não se possui, escreveu certa vez Goethe.

A compreensão implica uma apreensão total, uma posse, uma integração de um fragmento de verdade ao patrimônio pessoal. É uma ilustração interior, uma culminação fruto de um processo no qual a inteligência e a sensibilidade participam. Um fragmento de verdade pode ser vislumbrado pela intuição, mas deverá ser confirmado pela razão, de forma que, como compreensão, faça parte do patrimônio individual. Se não se confirma pessoalmente, propende-se à fé cega, `a anulação da inteligência, à falência da mente e do espírito. O que se compreendeu, a compreensão, implica numa fé consciente fruto da comprovação da verdade pela razão. A compreensão é de índole espiritual; acrescenta ao espírito o que lhe falta. Nada tem a ver com a ilustração do intelecto, senão com a formação do espírito individual.

A necessidade espiritual, o vazio interior, a fome por verdade e por conhecimento superior existe em todos os seres humanos. Uma fome que tem sido alimentada com o pão amanhecido da ilusão e da tergiversação.

A fé no futuro deveria significar a fé em si mesmo pelo que se é capaz de fazer pela própria vida, a fé consciente que se chega pela compreensão, pela posse gradativa de fragmentos de verdade que se obtém no decorrer do processo da vida, pela liberação espiritual que somente o próprio indivíduo pode fazer por si mesmo.

Nagib Anderáos Neto
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Os Acidentes e Suas Causas

Marquês de Condorcet

“Uma bela tarde em Paris, pelos fins do século XVIII, homens importantes da época reunidos na casa de distinta personagem”. Assim o escritor Bulwer Lytton, em seu romance Zanoni, ambienta um breve discurso de Condorcet, à época com grande reputação. E o nobre francês de nascimento, ali transformado em personagem, falou com toda a eloqüência:

“É absolutamente necessário que a superstição e o fanatismo cedam lugar à Filosofia. Os reis perseguem as pessoas, os sacerdotes perseguem as opiniões. Quando não houver reis, os homens estarão seguros; quando não houver sacerdotes, o pensamento será livre. Então começará a Idade da Razão! Igualdade de instrução, igualdade de instituições, igualdade de fortunas”.

“Sob a mais livre das constituições, um povo ignorante é sempre escravo”, escreveu certa vez o inspirado francês Marie-Jean-Antoine-Nicolas Caritas Condorcet.

Literato, filósofo, economista, matemático e político, sucumbiu numa prisão parisiense no ano de 1794 nas mãos dos terríveis jacobinos liderados por Robespierre, depois de ter colaborado ativamente naquele movimento revolucionário que pretendia acabar com os desmandos de uma monarquia abusiva, mas acabou tornando-se o primeiro grande movimento terrorista de que se tem noticia. “A arma da Revolução é o terror”, afirmava Robespierre, o pai de todos os terroristas, transformado em personagem na “Morte de Danton” do escritor George Buchner; e a Revolução Francesa o berço dos indignados que imaginavam que o terror e a violência pudessem resolver as desavenças que a inteligência e a sensibilidade humanas não souberam conciliar; e o inspirado Marquês de Condorcet, uma das mais ilustres vitimas do terror naquele tempo.

Condorcet concebia a possibilidade do aperfeiçoamento humano. Foi contagiado pelo otimismo e indignação de Voltaire, de quem foi editor, contra os impostores e ditadores.Em “Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano”, sua visão otimista fica muito evidente, contrapondo-se ao pessimismo de alguns pensadores da época. Foi vítima do terror por ser contrário à hegemonia ditatorial dos jacobinos - impostores de estreitas luzes que até hoje têm assento em muitas instituições - que não admitiam oposição de nenhuma espécie e se refestelavam no poder indefinidamente. Considerava que o desenvolvimento humano não poderia coexistir com os preconceitos e as crenças, pois estaria alicerçado na liberdade de pensar; que o progresso coletivo dependia do progresso dos indivíduos, material e espiritualmente falando.

Condorcet idealizou a escola pública na França que foi modelo para todo o mundo; defendeu as liberdades da mulher, as aposentadorias e pensões, o combate às guerras, o controle inteligente da natalidade.

Com tantas idéias, vontade de viver e otimismo, ele morreu solitário nos porões do terror, sufocado pelo ódio dos poderosos para os quais tudo se resume no poder, na riqueza e no jogo de seus mesquinhos interesses.

O que os impostores e os ditadores não compreendem é que os pensamentos criados pelos Condorcet sobreviverão e chegarão às mentes de muitas pessoas no futuro, transportando os ideais de progresso e aperfeiçoamento humanos através do fomento ao estudo e à educação; e que violência alguma conseguirá calá-los. Os homens do futuro poderão liberar-se das amarras seculares que engendram os ódios, os rancores e as guerras.

A humanidade deve muito ao Marquês de Condorcet e haverá de honrar a sua memória comungando com os nobres ideais que inspiraram a sua vida.

Nagib Anderáos Neto
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Tuesday, April 06, 2010

Machado de Assis

Na madrugada de 29 de Setembro de 1908, lúcido e recusando a presença de um padre, morreu Machado de Assis. Nascido aos 21 dias de Junho de 1839, numa parte suja da cidade do Rio de Janeiro, meio escravo, tornou-se um dos maiores escritores da amada língua portuguesa. Afeito à reflexão, ironizou a bondade dos brancos à época da abolição e também o advento republicano.
Sua morte lembra a de Voltaire. Ambos anticlericais, exímios escritores, conhecedores profundos da psicologia humana, críticos ímpares da sociedade e dos costumes, defensores da cultura e da liberdade, da literatura e da filosofia, lutaram bravamente contra as ervas-daninhas que entorpecem o solo mental e impedem o florescimento das idéias.
A leitura de Machado é uma aula de português sem-fim e um encontro com o Brasil – Colônia, com um Rio de Janeiro que não existe mais.
Os jovens leitores, no entanto, precisam ser preparados para lê-lo, e nunca por obrigação, como faziam nossos antigos mestres, pois a leitura deve ser uma forma de felicidade, como muito bem assinalou Borges, o notável escritor argentino.
Tendo passado pelo realismo e pelo romantismo, sua obra é muito reflexiva e irônica. Chama a atenção o soneto a Carolina, companheira de longos anos, na despedida em 1904:

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho aos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis do Rio antigo e da Academia, homem dos doces, das letras e dos jornais, brasileiro ímpar, nos diria que a vida dura um tanto e depois cessa. Diríamos que não, pois ele prova a nossa tese: a vida dura quanto deve durar e pode transcender a morte, como a dele, que continua vivendo na nossa.
E de certa forma ele assim o intuiu no soneto que fala do mundo interior como um contraponto à natureza exterior quando diz:

E contudo, se fecho os olhos e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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