Tuesday, September 12, 2006

DEMOCRACIA, OPOSIÇÃO E MUDANÇA DE GOVERNO

Os extremistas não admitem oposição. Talvez seja este o motivo pelo qual os regimes totalitários estejam sempre fadados ao fracasso. Ao não permitir a oposição, ao sufocar as vozes daqueles que tenham algum reparo a apresentar, eles perdem a grande oportunidade de analisar a própria conduta e os próprios critérios, de fazer a autocrítica necessária para quem compreende que pode estar errado e necessite de sugestões de outras pessoas que possam vislumbrar equívocos que eles não vêem.

Assim é como os opositores são afastados e silenciados pelos extremistas, e foge-se do exercício democrático pelo temor à crítica e pela rigidez mental.

Esta tendência nefasta existe em todas as partes: governos, empresas e instituições de toda a espécie onde dirigentes inflexíveis em suas posturas, ao calar a oposição, calam a própria reflexão e anulam a possibilidade de mudança de rumo.

A oposição é, muitas vezes, cruel em seus critérios, rígida e preconceituosa; mas é ela que permite a livre expressão do pensamento.

O inflexível vê no opositor um inimigo e trata-o como tal. Este preconceito tem separado os homens em grupos, associações e partidos que se enfrentam com violência ao invés de somar esforços para buscar soluções para os problemas que se sucedem.

O opositor mantém-nos despertos e nos faz pensar na possibilidade de estarmos errados. Esse reconhecimento é o primeiro passo para a evolução pessoal em qualquer âmbito das atividades humanas. O opositor nos faz pensar, o que é muito bom para a nossa inteligência que respira nesta atividade.

A mudança de governo é sempre dolorosa. Os dirigentes apegam-se ao cargo e ao poder transitórios; acomodam-se ao fascínio da posição, agarrando-se a ela como o náufrago ao salva-vidas. Assim é como a política passou a ser a arte de chegar ao poder e permanecer nele indefinidamente, vitaliciamente. A ambição, que tristemente norteia a vida da maior parte das pessoas, está sempre a apontar para a riqueza e para o poder.

Observando quem assume o poder, o espetáculo não é menos triste. Quem chega julga-se muito melhor que os que o precederam. Sua “personalidade” interrompe os projetos que vinham caminhando para iniciar uma nova fase com outros planos que sua inteligência formulará.
Nos dois casos, a raiz da questão é a mesma: a pessoa é governada pela personalidade, pela máscara interior que quer sempre diminuir os outros para projetar a própria figura.
A solução da questão resume-se na necessidade da mudança do governo interior e pessoal. Será necessário destronar o tirano das aparências e do engano, o ser pessoal, vaidoso e desumano que cada um carrega dentro de si; ele deve ser substituído pelo ser espiritual e humano que jaz adormecido no interior de cada um. É uma questão de disposição e desprendimento, caso a máscara não haja aderido definitivamente à epiderme psicológica.
A “personalidade” é o fruto do cultivo das aparências do ser humano; a somatória dos dotes com os quais pretende apresentar-se às outras pessoas alçando-se a uma fictícia estatura pessoal inflada pela vaidade e pela ambição.
Esta máscara - com a qual se pretende atravessar a vida aparentando ser o que não se é - deve ser arrancada, ainda que dolorosa­mente, para ascender aos caminhos do aperfeiçoamento individual.
A personalidade deve ser substituída pela individualidade, pelo cultivo de qualidades pessoais interiores. A tarefa não é simples, pois requer valentia e desprendimento; morte e renascimento. Esta é a maior das artes que possa um ser humano realizar: a criação de um novo ser surgindo das cinzas do velho homem pessoal, vaidoso e egoísta, como o pássaro mitológico e imortal.
A personalidade é uma frágil bengala com a qual se pretende atravessar a vida fingindo uma suficiência que o observador mais perspicaz identifica como falsa; a máscara da dissimulação e das aparências, da falsa humildade e da mansidão, que revela muitas vezes a fera escondida sob as vestes de um cordeiro.
A lógica deste mito é perfeitamente compreensível nos seres para os quais nada existe além da realidade do mundo físico. Para os que sentem a necessidade de transcender esse limitado estado de compreensão, essa visão limitada do entendimento, o mito passa a deixar de ter sentido, dando lugar à aspiração de substituir a personalidade pela individualidade, pelo cultivo das qualidades superiores do ser humano.
A renovação com continuidade, no que a Natureza é pródiga em exemplos, deverá ter para o ser humano a possibilidade de realização consciente, pelo conhecimento e domínio de cada passo dado naquela direção.

Nagib Anderáos Neto
www.logosofia.org.br

Monday, September 11, 2006

ONZE DE SETEMBRO E A EDIFICAÇÃO DO FUTURO

Diziam que depois do ataque de onze de Setembro Nova York não seria mais a mesma cidade. Como duas grandes antenas a captar e enviar sinais para o mundo, as torres gêmeas ratificaram sua condição de símbolo, metáforas do progresso e da ousadia humana que atraíram a ira dos que pretenderam salientar o inconformismo dos que se julgam excluídos.
Nas visitas que fiz à cidade, não cheguei a subir naquelas torres, ponto obrigatório de visitação. O Empire era mais acessível. Uma caminhada pela Quarenta e Oito até o grande edifício poderia ser emoldurada com aquela ascensão vertiginosa e com a exuberante vista de se perder o fôlego. Da estátua à ponte do Brooklyn, ao Parque Central e à visão longínqua de New Jersey, o olhar circunferente extasiava-se com a visão maravilhada das alturas, da imensidão, com o som abafado da vida que não parava nunca e com uma ponta de terror pelo balançar cadenciado da estrutura que o observador atento não deixava de perceber. Ao olhar maravilhado somava-se uma sensação dolorosa de opressão, impotência e terror.
Enquanto isto, cenas do quotidiano estariam ocorrendo lá embaixo, não menos deslumbrantes ou emocionantes para o turista e o cidadão comum que adotaram aquela vibrante cidade como sua.
Poderia ser uma visita ao Frick Collection onde a arte e a criação humana desfilavam defronte do olhar do visitante apressado ou uma caminhada despreocupada pelos meandros do Grande Parque, hiato verde e paradoxal em meio aos blocos de concreto e avenidas, ou um café na calçada da Avenida Columbus à sombra do arvoredo que circundava o Museu de História Natural. Poderia ser um inesperado show de Frank Sinatra no Radio City ou uma caminhada interminável pela Brodway, desde a cidade alta até o Bairro Chinês. Poderia ser uma visita ao Metropolitan, ou uma emocionante parada no florido Strawbery Fields, presente da Ono ao pacífico Lennon. Uma visita rápida à Grande Estação onde os filmes do passado, gangsteres e despedidas chorosas voltassem à mente através da grande tela da recordação. Tudo sempre muito familiar, pois aquela cidade fizera parte do imaginário de quem conheceu São Paulo na década de cinqüenta, uma fotografia que nada devia à grandiosa metrópole americana dos contrastes.
A cidade ia se acostumando aos estandartes ausentes das torres gêmeas que foram arte, arrojo, engenharia e história.
Não pude deixar de me surpreender ao ler um artigo que fora publicado em Buenos Aires no ano de mil novecentos e quarenta e um em que o autor apontava para o perigo das edificações muito altas, alvos fáceis para o bombardeio inimigo que já se iniciara nas capitais européias. Convocava engenheiros e arquitetos para estudar as edificações do futuro.
“Nas cidades, os edifícios não deverão oferecer mais estes alvos impossíveis de dissimular e proteger, e se haverá de edificar sob a terra, profundamente, caso se queira preservar a indefesa população civil de perecer envolta em chamas ou esmagada pelo desabamento das gigantescas obras arquitetônicas”.
Com essas palavras, González Pecotche vaticinava as catástrofes que sucederam aquele mês de Julho de quarenta e um, em plena guerra, e que continuam ocorrendo até hoje, e conclui: “Tanto o homem faz e desfaz que, a continuar assim, chegará até a perder, definitivamente, a razão, e com ela todas as prerrogativas de seu gênero”.
Onze de Setembro de dois mil e um deixou para Nova York e para o mundo uma grande lição: a necessidade da reconstituição do edifício humano sobre as sólidas bases da compreensão, do respeito e da tolerância, se não quisermos perder - como disse Pecotche - todas as prerrogativas de nosso gênero.



Nagib Anderáos Neto
www.logosofia.org.br